Ontem esteve no Programa Clovis Duarte da TV Pampa a deputada Luciana Genro do PSOL. No programa, a deputada sugeriu que o Senado fosse eliminado, isto é, que o poder Legislativo trabalhasse com apenas uma câmara. Não tenho nenhum comentário a respeito disso, mas vale mencionar.
Conversa vai, conversa vem e a deputada insistiu que nem o Senado, nem a câmara dos deputados está seguindo a “vontade do povo” e que isto é um problema.
Mas e a vontade do povo? Existe uma “vontade do povo?
Pela vontade do “povo”, creio que o governo não cobraria imposto algum, e magicamente a saúde também teria uma qualidade excepcional, não teríamos problemas de segurança, todas as crianças estariam tendo um ensino de qualidade, o analfabetismo estaria erradicado e não haveria filas nem demoras em processos burocráticos. Quero ver o dia em que um imposto seria aprovado num plebiscito.
Essa história de “vontade do povo” demonstra um populismo de quinta categoria. A “vontade do povo” é condicionada pelas propagandas, especialmente as de outros partidos, já que sempre terá algo para se criticar. Ironicamente, o marketing político foi criticado, mas a promessa de um Brasil mais rico com menos imposto — Luciana Genro criticou a CPMF — é igualmente ridícula, especialmente se formos dar o calote nos bancos e nos investidores brasileiros (a dívida interna do país é tão problemática quanto a externa).
A quantidade de propaganda que foi circulada contra a CPMF fez com que muitas pessoas odiassem o imposto, mesmo sem entender o quanto ele as afetava. É muito fácil seguir a vontade do “povo”, alterando-se a própria vontade do povo. Muitas pessoas são incapazes de pensar no longo prazo, e podem ser facilmente enganadas por promessas de um “alívio já”, mas que, no fundo, trazem consigo conseqüências que afetarão o futuro. E quando precisamos convencer as pessoas de algo que acontecerá no futuro, trazemos o argumento do “pense nas crianças”, ou “pense nos seus netos” se for num prazo ainda maior.
Ensinar as pessoas a pensarem por si mesmas é uma tarefa complicada. Só educação e riqueza não resolve; se resolvesse, os EUA não teriam iniciado uma guerra “contra o terror” que na verdade é “em favor do petróleo mais barato”. A educação precisa ser eficiente nesta tarefa, garantindo que a consciência do ser humano como vivente da sociedade - cidadão - seja alimentada desde cedo. Antes disso, precisa-se de um governo transparente, que se explique perante seus eleitores. Caso contrário, todos ficam impedidos de tomarem decisões informadas sobre qualquer assunto político.
É por este motivo, que, por enquanto, a classe política precisa entender que a “vontade do povo” é reacionária e facilmente condicionada. Os políticos deveriam ser responsáveis e, em vez de darem os ouvidos à esta população, darem a ela os meios para de fato formar uma opinião que mereça ser ouvida: transparência no governo e educação política e social do Brasil e do mundo.